domingo, 23 de maio de 2010

MULHER E MÃE

MULHER E MÃE



Em agosto próximo passado as mães de alunos da APAE/BH e da Escola Estadual José Bonifácio foram convidadas a viajar para uma cidade Chamada Emancipação, onde encontrariam uma feminista Chamada UBM. Receberam seus bilhetes e embarcaram no trem chamado “Atalhos e Retalhos”. A viagem mal começou e os resultados já são visíveis. Trata-se de uma parceria onde as entidades e pessoas envolvidas são movidas por um pensamento comum. O desejo de promover o desenvolvimento da pessoa e sobre tudo dessas mulheres que antes de ser mães, são mulheres, são pessoas. Sujeito de direitos, de desejo e de vontades.


A União Brasileira de Mulheres - UBM existe há 21 anos. Em toda sua existência suas militantes lutam intensamente no combate a opressão e na defesa dos direitos da mulher. Nós brasileiras somos protagonistas de uma realidade que apresenta diferentes etapas de civilização. Uma constituição avançada no quesito direitos da mulher, mas, devido, entre outras causas, à dimensão territorial e a multiplicidade do nosso povo vivemos culturalmente em várias épocas. As leis são de primeiro mundo, o legislativo em desenvolvimento e vivenciamos práticas cotidianas de relações, que são próprias da idade média ou da barbárie, quando os homens arrastavam suas companheiras pelos cabelos.
Educadas para abrir mão do prazer, as mulheres, muitas vezes, tem vergonha de externar seus desejos e sentimentos, abrem mão de uma porção de coisas em função dos familiares, principalmente, em favor do marido e dos filhos. Assim, continuam sendo violentadas sob todos os aspectos e nas diferentes formas de opressão. Uma das formas comuns de violência é a responsabilização da mulher pelo insucesso do filho na escola, pela má educação deste, pelo seu adoecimento, pelo salário que não dura até o final do mês, pelas crianças que são abandonadas, pelo emprego que se perde e por todo o mal que acontece com a família e com seu patrimônio.
Levando tudo isso em consideração, surge uma pergunta: como é ser mãe de um filho com deficiência? É sabido que os homens enfrentam inimigos fortes e ferozes, mas que, em geral, têm muito mais dificuldade, do que as mulheres, ao lidar com as diferenças e, sobre tudo, com os sentimentos, o sofrimento e as emoções advindas. Então, novamente, a pergunta: como é ser mãe de um filho com deficiência? Mãe de um filho que não vai responder as expectativas dos pais, ainda que sejam simples e pequenas. Surgem outras perguntas como: Em que lugares da vida e da escala de valores ficam os desejos e as vontades da mulher mãe? Desta que assume, quase sempre sozinha, cuidar e acompanhar esse filho com um pouco mais, ou menos, de limitações do que as outras pessoas. Como visualizar a linha que delimitam a mulher e a mãe? Como lidar com estes sentimentos que horas a sucumbem e horas a liberam para buscar a sua autonomia emocional e a independência do seu filho (a) “especial”?
Estas e outras questões a APAE/BH, a União Brasileira de Mulheres – UBM, e o Movimento Popular da Mulher – MPM através do projeto Atalhos e Retalhos buscam refletir e entender para unir forças e juntas quebrar as barreiras do preconceito e da opressão, para promover a autonomia através do resgate da auto-estima e da autoconfiança. Seja emendando retalhos, acertando pontos, escutando umas as outras ou trocando experiências, para tomar consciência do mundo que nos cerca e do papel de cada uma na sua transformação.



Texto publicado publicado no no jornal da APAE/BH - Ed. nº 2 dezembro de 2009  e na revista Presença da Mulher nº58, março de 2010
Carmélia Viana é atriz e psicóloga
Coordenadora Executiva da UBM e
Conselheira M. dos Direitos da Mulher em BH

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