segunda-feira, 31 de maio de 2010

TRECHOS DE UMA ENTREVISTA CONCEDIDA A UMA ALUNA DA GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL DA UFMG

1) Como você entrou para o movimento? Quem te apresentou? Como você o conheceu?
Fui sempre muito inquieta, sempre querendo compreender as coisas por dentro e porque elas existem ou acontecem. Primeiro me organizei em outras atividades políticas e depois junto com outras amigas e companheiras de lutas fundamos o Movimento Popular da Mulher. Nesse aspecto era ainda muito ignorante, ou equivocada, eu diria, movida a preconceitos, valores conservadores... depois fui amadurecendo.
2) O que te motivou a isso?
Sempre a atração pela descoberta, o desejo de ir além e de mudar as coisas que eu achava errado.
3)  Você já pertenceu a outro movimento social além do MPM? Sim. Qual e por que se desligou?
No Movimento feminista, cresci com o MPM, me formei. E embora já tenha militado em muitos outros movimentos, a defesa dos direitos da Mulher faz parte da minha vida do meu dia-a-dia. O que eu fiz foi expandir, participar de Organizações Nacionais, nas quais o MPM é filiado, como: Rede Feminista de Saúde e União Brasileira de Mulheres.
4) Essa sua inserção, no movimento social, foi reflexo de alguma ação da sua infância ou juventude?
Talvez os valores que conhecia na infância, na religião, como: a solidariedade, a crença de que somos todos iguais, amar ao próximo como a mim mesmo... Acreditando em tudo isso, mesmo deixando de seguir uma religião aprendi a não aceitar as injustiças, a desigualdade e tudo que as compõem.
5) Ao longo da sua vida, houve alguma mudança significativa, como mudança de domicilio, emprego, a perda de alguém querido, que interferiu na sua militância junto ao movimento?
Não, acho que só me trousse coisas boas, ou são mais compensadoras, me dá muito prazer.  E como foi esta influencia? Prazerosa.
6) Caso, você tenha casado, como foi a conjugação da militância dentro do movimento social e a sua relação familiar? Todos aceitavam?  Claro que como em toda a minha vida, ou na vida de qualquer pessoa, que quer ser livre e independente, tive que conquistar o meu lugar. E acho que a base, sólida, da minha infância, mais a análise, que fiz, nos anos 70, ajudaram nessa conquista de liberdade. Nunca precisei escolher entre o marido e a militância ou entre os filhos e a militância, acabava descobrindo a hora de assumir cada papel. E tratava de representá-lo da melhor forma possível.
7)  Como seus filhos vêm a sua militância? Algum participa junto com você?
Com admiração, participam ou já participaram, são pessoas conscientes do seu papel, na sociedade.
8)  Qual era a opinião de seus familiares, como a dos familiares de seu marido, no que diz respeito ao seu envolvimento dentro do MPM? Nunca dei trela para o que acham ou dizem sobre as coisas que faço ou deixo de fazer. Procuro atender as exigências dos meus diversos papeis, na vida, e procuro fazer o melhor, se deixo de agradar alguém, sinto, mas, não posso fazer nada a respeito. Meu tempo é sempre menor do que eu preciso.
9) Em relação a sua profissão, ela teve algum envolvimento com o movimento social? Sim. Se teve, em quais aspectos?
A idéia que tenho das pessoas é que não são pedaços, as nossas crenças e valores estão presentes em tudo que fazemos, manifestam com mais ou menos intensidade, mas, estão ali. Acho que escolhemos profissões que nos permitem ser como somos.
10)  Como os seus colegas de trabalho viam a sua militância?
Sempre que criticam ou discordam acho uma excelente deixa para  discutir o assunto, neste ou no momento oportuno.
11) Quais foram os motivos que te levaram a ter interesse pelas causas sociais, e especificamente de causas referentes às mulheres? 
Não sei exatamente. Talvez a minha inquietação, atração pela aventura e desfios.
12) Hoje, qual é o seu nível de envolvimento dentro do movimento?  
Sou ativista do movimento de Mulheres, além do MPM, participo da mesa diretora do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher – BH e da Executiva Nacional da União Brasileira de Mulheres.
13) Ele foi se modificando ao longo dos anos? Há diferenças entre o seu envolvimento no inicio e o de hoje? Sim.   
Se sim, em quais aspectos?
A sociedade não é estática. No processo de desenvolvimento, modificamos e somos modificados. Muitas das bandeiras defendidas ainda são as mesmas de décadas passadas, às vezes da mesma forma, às vezes com nova roupagem. Ainda temos muito que conquistar e modificar nas relações. Conquistamos muito nas leis, mas a prática cotidiana ainda é de muito sofrimento e sobrecarga para a maioria das mulheres.
14) Como você vê a militância dentro do movimento de mulheres? 
Da forma que eu vejo a sociedade como um todo, vivemos em três mundos diferentes. O mundo da grande civilização, do acesso a tecnologia, às  novas descobertas científicas... onde as pessoas podem realmente escolher, acessar as informações e assim garantir sobre tudo o direito de liberdade. Há outro mundo em desenvolvimento, onde as pessoas conhecem os direitos e lutam para modificar a cultura de subtração desses direitos. Nesse mundo as pessoas participam dos movimentos, selecionam as informações recebidas, ou seja, caminha para o desenvolvimento, propriamente dito. Mas há, ainda, outro mundo de desconhecimento, quase absoluto, das leis e dos direitos.  Onde as pessoas estão excluídas e desamparadas; são enganadas e, muitas delas não acreditam nas leis, na justiça, na política, contam e esperam cada vez mais da justiça divina. O movimento não deve existir exclusivamente para essas pessoas, mas precisa afetá-las, de alguma maneira.
 15) Ao longo do tempo que você está no MPM, você teve alguma dificuldade, seja ela por causas sociais, como preconceito ou até mesmo materiais por pertencer ao movimento social? Eu pessoalmente, não.
Quais foram? Como você lidou com isso?
(O movimento em si passou e passa frequentemente por muitas dificuldades. Nenhum movimento sobrevive só de algumas horas de militância das pessoas que acreditam no que defendem. Ele precisa de infra-estrutura, de recursos humanos e tudo isso custa dinheiro. É um processo dialético, não se organiza sem dinheiro e nem se consegue dinheiro sem se organizar)...
16) Como você avalia a sua participação dentro do movimento?
Boa, porem limitada. Com altos e baixos.
17) Qual é a maior gratificação pessoal que você tem por ser de um movimento social?
De certa forma, acredito estar dando a minha contribuição à sociedade e isso me apazigua.
18) Na sua opinião, qual é a maior mudança que ocorre no sujeito, depois que ele entra no movimento social?
sso é pessoal. Acredito que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Com certeza ninguém é a mesma pessoa após qualquer experiência e, entrar no movimento pode ter várias representações, ou nenhuma...
19) Na sua opinião, qual foi a maior conquista do MPM? Na minha opinião,  o MPM nunca conquistou nada sozinho. Será que alguém já perguntou para uma escola qual a sua maior conquista????...
20) Em relação ao futuro, como você se vê dentro do movimento? O que você espera dele, e dos sujeitos nele envolvido?
Por toda sua experiência, sua história, O MPM é uma escola, constituiu um saber. E espero poder passar esse saber à sociedade. (*Estamos buscando patrocínio para gravar um documentário co as experiências vividas).
21) Quais são as conquistas que você acredita que ainda são importantes e ainda devem ser alcançadas dentro do MPM?
Todas as conquistas são importantes, algumas, necessárias.
Por que? A elevação do número de mulheres aos espaços de decisão e a diminuição da violência, ou seja, a diminuição do número de mulheres mortas por seus atuais ou ex companheiros, namorados, etc, é urgente.