domingo, 23 de maio de 2010

ATALHOS E RETALHOS Uma experiência que deu certo

ATALHOS E RETALHOS
Uma experiência que deu certo

Por Carmélia Viana


A União Brasileira de Mulheres – UBM, em por entender que uma das dificuldades encontradas pelas mulheres no mercado de trabalho é a falta de qualificação vem buscando parcerias com o Governo Federal, para contribuir na formação de mulheres, sobretudo daquelas que são chefes de família. Em Minas Gerais, a primeira experiência se deu em 2009, quando Através de Uma Emenda Parlamentar apresentada pela Deputada Jô Moraes do PC do B, foi executado o Projeto Atalhos e Retalhos com recursos da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres.
 O projeto consiste em qualificar mulheres em moda, estilo e acessórios utilizando retalhos, ou seja, o material descartado pelas fábricas de vestuário. Além da qualificação para o mercado da moda, as alunas receberam aulas e palestras de assuntos transversais como: Direito da pessoa, Direitos humanos, trabalho e cidadania; preservação ambiental e saúde, relações interpessoais, expressão corporal, utilizando o teatro e a dança como instrumento de inclusão.


 Inserido nas comunidades carentes o projeto teve duração de um ano e atendeu direta e indiretamente cerca de 600 pessoas. Foram criados três núcleos em Belo Horizonte e Região Metropolitana, sendo 3 turmas no primeiro semestre e 3 no segundo com, aproximadamente, 120 alunas freqüentes, tendo em média 20 alunas por turma, com idade que variava entre 15 e 90 anos. Deu ainda a oportunidade de contratar pessoas e serviços nas comunidades.O projeto teve a coordenação geral da companheira Eulália Regina, que contou com a colaboração das demais, Carmélia Viana – Coordenadora da UBM no estado - Bebela - Presidente do Movimento Popular da Mulher – Entidade parceira – e Maria de Lourdes Silva Coordenadora jurídico-financeiro do projeto.


Entre as parcerias firmadas, uma merece destaque especial. Foi com a APAE/BH, onde foram atendidas as mães de alunos da instituição. Foi muito gratificante para nós trocar experiências com uma entidade tão respeitada quanto a APAE e poder trabalhar com mulheres que superam obstáculos todos os dias na busca e efetivação dos direitos de seus filhos com necessidades especiais. E que, por causa destes são duplamente discriminadas e violentadas, ficando só na maioria das vezes.
Muitos foram os desafios encontrados, Porém uma experiência grandiosa, dado a receptividade e aceitação das entidades parceiras, das lideranças comunitárias, sobretudo das mulheres participantes. Pudemos perceber através da experiência, de conviver e da escuta a essas mulheres, como é que décadas de opressão, repressão e violência adoecem e maltrata as mulheres; o quanto estas mulheres estão carentes de tantas coisas e, principalmente de carinho, de afeto, atenção e de perspectivas. Estão carentes de pessoas e situações que destrua a sensação de menos valia e lhes aumente a auto-estima e lhes estimule a descobrir que elas querem, podem e são capazes.



Texto publicado na revista Presença da Mulher nº58, março de 2010.
Carmélia Viana
E psicóloga e atriz; é Conselheira Municipal dos Direitos da Mulher de Belo Horizonte e coordenadora da UBM no estado de Minas Gerais.
Texto publicado nona revista presença da Mulher edição nº 58, março de 2010.

MULHER E MÃE

MULHER E MÃE



Em agosto próximo passado as mães de alunos da APAE/BH e da Escola Estadual José Bonifácio foram convidadas a viajar para uma cidade Chamada Emancipação, onde encontrariam uma feminista Chamada UBM. Receberam seus bilhetes e embarcaram no trem chamado “Atalhos e Retalhos”. A viagem mal começou e os resultados já são visíveis. Trata-se de uma parceria onde as entidades e pessoas envolvidas são movidas por um pensamento comum. O desejo de promover o desenvolvimento da pessoa e sobre tudo dessas mulheres que antes de ser mães, são mulheres, são pessoas. Sujeito de direitos, de desejo e de vontades.


A União Brasileira de Mulheres - UBM existe há 21 anos. Em toda sua existência suas militantes lutam intensamente no combate a opressão e na defesa dos direitos da mulher. Nós brasileiras somos protagonistas de uma realidade que apresenta diferentes etapas de civilização. Uma constituição avançada no quesito direitos da mulher, mas, devido, entre outras causas, à dimensão territorial e a multiplicidade do nosso povo vivemos culturalmente em várias épocas. As leis são de primeiro mundo, o legislativo em desenvolvimento e vivenciamos práticas cotidianas de relações, que são próprias da idade média ou da barbárie, quando os homens arrastavam suas companheiras pelos cabelos.
Educadas para abrir mão do prazer, as mulheres, muitas vezes, tem vergonha de externar seus desejos e sentimentos, abrem mão de uma porção de coisas em função dos familiares, principalmente, em favor do marido e dos filhos. Assim, continuam sendo violentadas sob todos os aspectos e nas diferentes formas de opressão. Uma das formas comuns de violência é a responsabilização da mulher pelo insucesso do filho na escola, pela má educação deste, pelo seu adoecimento, pelo salário que não dura até o final do mês, pelas crianças que são abandonadas, pelo emprego que se perde e por todo o mal que acontece com a família e com seu patrimônio.
Levando tudo isso em consideração, surge uma pergunta: como é ser mãe de um filho com deficiência? É sabido que os homens enfrentam inimigos fortes e ferozes, mas que, em geral, têm muito mais dificuldade, do que as mulheres, ao lidar com as diferenças e, sobre tudo, com os sentimentos, o sofrimento e as emoções advindas. Então, novamente, a pergunta: como é ser mãe de um filho com deficiência? Mãe de um filho que não vai responder as expectativas dos pais, ainda que sejam simples e pequenas. Surgem outras perguntas como: Em que lugares da vida e da escala de valores ficam os desejos e as vontades da mulher mãe? Desta que assume, quase sempre sozinha, cuidar e acompanhar esse filho com um pouco mais, ou menos, de limitações do que as outras pessoas. Como visualizar a linha que delimitam a mulher e a mãe? Como lidar com estes sentimentos que horas a sucumbem e horas a liberam para buscar a sua autonomia emocional e a independência do seu filho (a) “especial”?
Estas e outras questões a APAE/BH, a União Brasileira de Mulheres – UBM, e o Movimento Popular da Mulher – MPM através do projeto Atalhos e Retalhos buscam refletir e entender para unir forças e juntas quebrar as barreiras do preconceito e da opressão, para promover a autonomia através do resgate da auto-estima e da autoconfiança. Seja emendando retalhos, acertando pontos, escutando umas as outras ou trocando experiências, para tomar consciência do mundo que nos cerca e do papel de cada uma na sua transformação.



Texto publicado publicado no no jornal da APAE/BH - Ed. nº 2 dezembro de 2009  e na revista Presença da Mulher nº58, março de 2010
Carmélia Viana é atriz e psicóloga
Coordenadora Executiva da UBM e
Conselheira M. dos Direitos da Mulher em BH